10/02/26

O futuro

Nós sabemos – o futuro
não é um caminho
ao qual voltamos diariamente,
é uma curva de que apenas
divisamos o suave declinar,
e por ela avançamos descobrindo
a cada passo o espaço
que vamos percorrer de seguida.
 
Nós sabemos.
Mas houve outras curvas
que dobrámos antes,
e acreditamos na memória
e nas palavras dos antigos,
nos livros que registaram
os tempos que outros viveram
antes de nós.
 
E os antigos dizem: está a acontecer,
neste movimento lento do ponteiro,
o que está a destruir o mundo
e as coisas como sempre as conhecemos,
está a acontecer agora,
e escrevendo no presente
deixaremos um rasto
que será lido no futuro. 
 
E os antigos gritam: não repitam
o que agora estamos a viver,
permitam que o caminho
se desdobre em múltiplas vias,
que não haja quem as encubra
com névoas, amarras e mordaças,
não deixem que a mentira
alastre, com seus tentáculos apodrecidos,
por toda a vida,
todo o amor,
toda a alegria.
 
Os antigos gritam
da entrada da caverna
e os seus gritos
não chegam
não chegam até nós.
Olhamos para sombras
projetadas no ecrã
e acreditamos nelas,
não as podemos dissipar
nem as afastar, o desenho do destino
foi escrito a tinta permanente.
 
O futuro afinal
não é um caminho desconhecido:
é uma bifurcação onde voltamos,
um retorno que se repete
até à destruição do mundo.
Esperemos que haja ainda tempo
para construir novas cidades
com as pedras das próximas ruínas.

09/10/25

Este poema

Falei de ti e os sonhos voltaram.

Deveria saber que é sempre assim,
as palavras trazem o esquecido,
os lugares e o seguro
que a vida estabelece, a demarcação:
 
não regressarás ao tempo
onde enfrentaste o silêncio
e a casa vazia por dentro das
figuras que a descrevem, dilúvios
curtos contra a espessura do grito.
 
Entre essa imagem e o espelho
há o doce olhar de um veado
pronto para a matança.
E nessa imagem vivo eu
 
mas tu não me procuras,
vivo eu e o eco do amor,
atenuado, uma vibração
tão mínima na noite que
apenas a sinto quando
 
a trago aqui, a este poema.  

23/09/25

O rio sagrado

Do lado esquerdo do rio
os dias são mais curtos,
pescadores de ilha em ilha
procuram conchas para matar
a fome.
 
Do outro lado do mundo
o sol rasura o céu
de outra maneira,
aqui a ponte serve de moldura
para a sua emenda,
e a noite vai-se embrenhando
nos braços areando
o fundo,
à procura de mais um dia.
 
Pescador de pele tisnada,
toma o ódio e transforma-o
em moedas para enviares
para o outro lado do mundo,
bem podem gritar
contra o teu corpo,
no teu rosto,
nada te demoverá.
 
No teu passado
egrégios avós
escravos que à distância
te trouxeram aqui,
procuravam no lodo
a verdade, uma só,
que lançaram ao mundo.
 
“Isto é Portugal! Isto é Portugal”,
vomitam os celerados,
herdeiros dos senhores de outrora –
o rio regressa da foz à nascente,
e tudo se repete, eternamente.
 
Portugal também és tu,
que estás aqui agora,
e fazes do ódio beleza,
talvez nada reste mais neste dia,
mas é teu.

07/08/25

Regresso

Passo mais tempo dentro
do que fora.
E dentro vai-se acalmando
o tempo, desacelerando
seu passo,
esperando que em si germine
a semente de onde nascem
as minhas mãos e a corda
que as prende ao seu destino.
 
O meu país é pequeno,
tão pequeno como o coração
que o abriga,
tão grande como esse golfo
de sangue onde o dia
aporta, o curto tempo
e a breve praia onde espero
dormir depois do naufrágio.
 
Faço companhia aos peixes
e nesta masmorra 
o tempo passa
tão devagar como o meu desejo dele,
esse mesmo desejo que nos
engole como onda
em mar bravo,
golpe solto,
cumprindo a hora fosca
seu desígnio quando
os barcos de Ulisses
entram na baía 
do regresso.
 
Passo mais tempo
dentro de mim
do que ao largo de mim,
e no céu onde mergulho
há um monstro familiar
puxando-me em direção ao fundo,
na sua boca um rosto
no seu rosto o sangue
desenhando a verdade
que agora liberto:
 
um dia,
qualquer dia,
talvez não encontre
o caminho de volta,
e assim está bem, aceito isso,
as mãos precisam de sombra
para cumprir seu destino.

28/07/25

Um ritmo

Quem conhece a vida sabe que o seu ritmo não tem um compasso certo. Flutuações e desvios, abrandamentos e acelerações, incertezas, infortúnios e alegria. Mas a pergunta que devemos fazer não é se conhecemos a linha que a define, mas se conhecemos na verdade a vida, o seu rosto, o seu coração intenso? Deveríamos ser mineiros, martelando, escavando até encontrarmos o minério negro que habita na mais profunda noite, mas preferimos ser ilusionistas à frente de um espelho, criando a conjura e o próximo engano. Precisamos de quem nos roube o reflexo, de quem nos ajude a descobrir o mistério, a enfrentar o medo. Mas dancemos antes, até gastarmos a sola dos sapatos! No fundo do covil construído, a espessa vontade de veemência. 

15/10/24

Vanda

Ossos e No Quarto da Vanda, só por si, fazem de Pedro Costa um dos grandes realizadores contemporâneos. Depois há Juventude em Marcha, a obra-prima que conclui a sua "Trilogia das Fontaínhas". Aqui vemos Vanda Duarte, espectro que assombra Ventura, fantasma de um bairro desaparecido. O fantasma real que habitou antes o bairro, capturado pela câmara de Pedro Costa. Em modo divino.

07/10/24

A nossa irmã mais nova

Os filmes de Hirokazu Kore-Eda são fantasmas que nos guardam durante muito tempo. Assombrações de beleza e humanidade.

21/09/24

O trabalho dos dias

O lavrador cultiva a terra
e a terra oferece os seus frutos.
O pescador enfrenta o mar
e o mar devolve o alimento
de que o pescador precisa.
O escultor cinzela a pedra
e a pedra torna-se rosto
mãos e torso, beleza.
O pintor olha para a tela
e da tela nasce o sopro
que anima as figuras.
Deus olhou para o meu esforço
e disse:
regressa
à terra, ao mar,
à pedra, à tela,
e nasce de novo para
o ofício que escolheste
e que ele seja tão claro e evidente
como as uvas na videira
amadurecendo
ao sol lento de Verão,
antes da vindima.

20/01/24

David Bowie

Há um homem
é um homem
percorrido pela luz
e sorri
a legenda diz que é a
última foto
última foto
mas todas as imagens
que eu vi a seguir
dele,
sorrindo por dentro
desse diafragma
por onde escapa aquele ritmo
aquele ritmo doido
gritam
aquela não é a última foto
e a imagem
vive agora nos meus dedos,
e nas colunas de som
de todas as discotecas de Berlim
e do mundo,
a imagem vive nessa
bela abstração
a que os gregos um dia
chamaram musiké
a arte das musas
e do céu mais longínquo
do céu mais negro e mais profundo
ele canta
e não é mais a imagem
não é mais a última foto,
esse vislumbre de metamorfose,
é forma além da forma,
som sucedendo-se ao silêncio.